terça-feira, 12 de abril de 2011

Com a palavra: Carlos Drummond de Andrade




Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.


Trecho retirado de “Reverência ao Destino” de Carlos Drummond de Andrade, minha maior inspiração nestes dias tão negros.

domingo, 10 de abril de 2011

Senha 158


“Senha 157, senha 157!” – gritava a recepcionista na porta do consultório. Finalmente, depois de longos dois minutos o senhor da senha 157 se dirige ao consultório do doutor. Logo mais, quem estaria entrando por aquelas portas seria eu, o vulgo “senhor 158”.

Tentava segurar com os dedos a dor que sentia no estômago. Inútil! A dor era tão profunda que atravessa as linhas do estômago e iam lá pro fundo da alma. Os dedos não conseguem segurar a dor que vem da alma. “Céus, por que o atendimento demora tanto?” – pensava eu durante aquele interminável tempo na sala de espera.

Finalmente, depois de quase uma hora a recepcionista volta a berrar: “Senha 158, senha 158!”. Levanto-me apressado da cadeira em direção ao consultório. Era o momento exato de pedir socorro.

- Doutor, estou com problemas.

- O que você sente?

- Não sei exatamente, mas não ando passando muito bem.

- Quais os sintomas?

- Estou há semanas com um terrível mal estar, mas ontem pela madrugada vomitei uma carta antiga e dois álbuns de fotografia. Fiquei preocupado e vim falar com o senhor!

- Mas as fotos saíram rasgadas ou inteiras?

- Inteiras. Algumas um pouco desbotadas, pareciam antigas, mas eram intactas...

- E a carta, estava legível?

- Claramente legível! Até parecia que tinha acabado de ser escrita.

- Esse mal estar que você falou inclui febres de nostalgia?

- Sim! Há dias a febre tem sido tão constante que até tenho tido uns delírios. Horrível!

- Nem preciso fazer exames para diagnosticar. Isso é indigestão emocional, meu caro.

- Indigestão emocional? O que seria isso, doutor?!

- Indigestão emocional é a incapacidade de digerir emoções, sentimentos, lembranças. Elas grudam nas paredes da Memória e cronicamente elas trazem um desconforto terrível forçando o estômago a vomitar em meio a febres nostálgicas.

- E tem algum remédio para isso?

O médico riu debochadamente da minha cara e respondeu:

- Ah, eu já estava esperando por essa pergunta! Todos os que sentam nessa cadeira esperam que eu tenha uma fórmula mágica que resolva as dores que acalentam as suas vidas. Minha resposta infelizmente é não, meu jovem. Não existe remédio que cure a indigestão emocional!

- Mas não existe nem um tratamento possível para me ajudar?

- O jeito é ter uma boa dieta alimentar. Inclua em suas refeições boas doses de saladas de realidade, evite comer pratos de discórdia e de maneira alguma coma as frituras da mágoa. Acredite meu jovem, só assim irá conseguir se livrar dessa indigestão terrível!

O médico anotou tudo num papel sobre aquilo que eu poderia e o que eu não poderia comer nos próximos dias e eu, como todo bom paciente, não ando seguindo a receita à risca.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Teatro





Hoje me escolheram para participar da encenação de um espetáculo. No elenco haviam vários artistas, alguns experientes e outros em inicio de carreira.  Durante a escolha do personagens todo mundo quis ser herói, mocinho e alguns mais comedidos escolheram ser vítimas. 

Todos sabemos que toda história de herói é obrigado a ter um vilão, que toda história de vítima necessita de um culpado, mas quem seria o vilão, quem seria esse bendito culpado? Ninguém! Ninguém queria ser. O silêncio na coxia e os olhares do elenco em minha direção me fizeram concluir o óbvio: na ausência dos bons e velhos vilões, eu era a escolha plausível. E, sem escolha e sem ânimo por fim acabei aceitando o papel.

           Nos palcos, na literatura ou nas telas de cinema essas histórias podem até fazer um certo sentido, porém na vida real não é tão simples assim. Todo mundo tem o seu lado vilão e herói, culpado e vítima. Acorde, você não errou sozinho! Eu acordei – e percebi que não fui o único a ser machucado, ou ainda, o único que machuquei.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

#Revolucionáriosdesofá



                Uma onda revolucionária tomou as redes sociais nos últimos dias. Pessoas entusiasmadas com as revoltas originadas no Egito se juntam ao redor do mundo para protestar suas indignações regionais em sites de relacionamento como Twitter e Facebook.
            
                Na teoria, protestar sobre o aumento da tarifa de ônibus (#contraoaumento) ou protestar contra a reeleição do senador José Sarney (#forasarney) são de profunda expressão no cenário virtual. Na prática, esses protestos não chegaram a sensibilizar nenhum político e o rebuliço gerou, na pior das hipóteses, alguns unfollows para os manifestantes.

                O problema não está no protesto dentro das redes sociais em si, mas sim no protesto se restringir somente a elas. Segundo Evgeny Morozov – pesquisador russo de mídias sociais e autor do livro Net Desolution – existem exceções, mas muitas vezes esse tipo de ciberativismo não apresenta resultados, visto que se preocupa muito com a mobilização (juntar seguidores no Twitter e amigos no Facebook) e pouco com a ação (depois de conseguir 10 mil seguidores e fãs na página do Facebook, o que vai fazer? Enviar spam com conteúdo político para todo mundo?).

A capacidade de mobilizar ainda está encantando os ciberativistas, embora a capacidade de agir seja bem mais importante. Para Morozov, o resultado dessas mobilizações é uma baixa taxa de comprometimento e uma alta quantidade de participantes. Combinação nociva para qualquer movimento.

Quanto maior o grupo, menor a pressão para apresentar resultados (se eu não fizer nada, ninguém vai perceber já que tem tanta gente mesmo). Ou seja, se não existem meios de mensurar a participação de cada em um movimento, os efeitos são mínimos. Por essa razão, nas plataformas de redes sociais, é muito fácil você “fazer a sua parte”, basta usar uma hashtag e pronto, mais um revolucionário de sofá inserido no mundo do ciberativismo!

Não adianta, esperar que uma simples hashtag irá mudar a posição de um governo é utopia. É preciso um pouco mais do que isso, é preciso ação. Um bom exemplo disso é o que aconteceu na Colômbia no começo de 2008.

Oscar Morales resolveu compartilhar sua indignação contra os abusos realizados pelas FARC fazendo uma página no Facebook. Em menos de 24 horas haviam 8.000 fãs e Morales viu que era hora de agir.

Convocou os fãs para realizar uma marcha que iria ser realizada no mês seguinte em Bogotá e o resultado foi surpreendente. No mês seguinte 10 milhões de colombianos saíram às ruas para protestar contra as FARC em Bogotá e mais 2 milhões em várias cidades do planeta. A iniciativa pressionou o governo colombiano a tomar medidas mais severas contras as FARC e a libertação de mais de quinhentos reféns.

O problema essencial destes protestos (como passeatas, mas principalmente tuitaços) é que geralmente gasta-se uma grande energia na produção desses eventos que acabam afastando-os das questões essenciais, como a de que governos  sofrem reformas em sua maioria devido a problemas políticos e econômicos. Em outras palavras, não adianta mobilizar uma passeata contra o aumento da tarifa e ir embora para casa de ônibus. Se o governo não sente o protesto no bolso ou nas urnas, ele não sente em lugar algum.

Ou seja, redes sociais podem ser um ótimo trampolim para grandes mobilizações sociais, mas  vale lembrar que só “tuitaços” não vão mudar o mundo. Como diz uma velha canção: “...comece a agir chega de falar, só com palavras não se pode mudar...”

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Detalhes


                O papa Júlio II atravessava os corredores do Vaticano inquieto. Estava furioso com o novo artista que havia contratado, um jovem chamado Michelangelo. Meses haviam se passado e a pintura do teto da capela pela qual havia sido pago ainda não estava pronta. “Não está pronta, ainda não terminei os detalhes” – dizia Michelangelo todas as vezes quando questionado.

                O problema é que para os olhos do papa – e da maioria das pessoas – a obra já estava pronta há muito tempo. Não havia mais detalhes a serem feitos ali, mas não para os olhos de Michelangelo. “Não estou vendo nenhum detalhe a ser aprimorado” – disse o papa certa vez. Michelangelo olhou para o teto e respondeu: “Não me importo se os outros não estão vendo, o que importa é que eu estou vendo”. E, no ano de 1512, Michelangelo entrega uma de suas obras mais incríveis: o teto da capela Sistina.

                Essa história me lembra uma situação engraçada que me ocorreu esses dias. Estava no aniversário de um tio meu. Olhei para o sofá na sala de estar e me esparramei nele, havia uma televisão ligada e acabei me entretendo com um programa qualquer. Minutos depois vi a minha avó andando pela sala e convidei-a para sentar-se comigo. Trocamos poucas palavras e lá estava eu novamente entretido com o programa de TV. Minha avó, entretanto, estava entretida com outra coisa. Olhei para o lado e vi que mesmo depois de “encerrado” o nosso rápido diálogo ela ainda estava prestando atenção em mim – e, em resposta, carinhosamente segurei a sua mão.

                Não precisamos falar nada durante um bom tempo. Sabíamos o que os dois estavam falando, mesmo sem dizer coisa alguma. Minutos depois os meus olhos se encheram de lágrimas e não contive a emoção, era preciso dizer: “Eu te amo, vó”. Ela sorriu carinhosamente e disse com sua voz trêmula: “Eu também te amo, e amo muito”. Ela se levantou e foi buscar uma coisa qualquer e depois disso não nos encontramos mais naquela festa.

                Detalhes. O teto da capela Sistina é cheio deles! Séculos já se passaram e ainda grupos e grupos de cientistas estudam a complexidade que esses detalhes carregam. O papa e seus assessores não conseguiram ver mais detalhes a serem feitos simplesmente porque não tinham os mesmos olhos de Michelangelo.

                Detalhes. A vida é cheia deles! Muitas vezes não vemos como a vida é cheia de ricos e excitantes detalhes porque nossa miopia emocional - fruto de uma sociedade voraz que prioriza mais a rapidez do que apreciação do momento - nos impede. E assim como diz uma velha canção: “...lá se vai a vida inteira à toa, e assim escoam nossos dias enquanto é dia...”. Minha conclusão é: até quando será dia para mim? Eu não sei. Só sei que não quero passar  mais nenhum dia sem apreciar os detalhes.